Banguela: Um livro-reportagem com ousadia e criatividade

por Flávia Cunha,  jornalista e mestre em Literatura Comparada

livro reportagem 300x224 GÊNEROA vertente mais visceral do jornalismo, sem dúvida, é a reportagem. O repórter vai às ruas, apura fatos, efetua inúmeras entrevistas que nem sempre serão aproveitadas, entra em contato por telefone com mais fontes e só depois começa a burilar o texto e a extrair desses dados e de sua percepção o resultado final do trabalho. Essa rotina de trabalho varia de acordo com cada veículo de comunicação, por suas especificidades. Mas a essência do repórter deve ser a mesma, independente de onde ou para quem trabalha. Curioso, ágil e com garra.

Muitas vezes, uma reportagem de fôlego, que exigiu muita investigação e dedicação do profissional, pode não ter espaço dentro das mídias convencionais. Assim, o jornalista guarda seus anseios pelo imediatismo e prefere escrever uma história com mais tempo e criatividade: é o chamado livro-reportagem. A Sangue Frio, de Truman Capote, dá visibilidade a esse tipo de literatura. No Brasil, temos Caco Barcelos como um dos expoentes do gênero, com Abusado e Rota 66.

Fruto do jornalismo literário, esse gênero fica na fronteira entre a não-ficção e a ficção. A criatividade do escritor-jornalista é fundamental para envolver o leitor. O enredo baseado em fatos reais toma o formato literário, com o uso, por exemplo, da recriação de diálogos e da interação entre personagens fictícios e pessoas reais.

É o que Marcio Pessôa faz, com grande competência, em Banguela. A partir de uma apurada investigação, o jornalista aborda uma das histórias recentes mais impactantes da crônica policial do Rio Grande do Sul. Recursos literários que beiram o realismo fantástico são um dos diferenciais do livro, como o ponto de vista de seres inanimados. Uma saborosa ousadia, a serviço de um relato contundente.