Amilton Belmonte,  jornalista especializado em Segurança Pública

 DEPOIMENTOS

O criminoso que inspirou o livro tornou-se uma espécie de referência para a crônica gaúcha quando o tema são assaltos a carro-fortes, explosão de caixas eletrônicos e similares. Digo isso porque ele inaugurou, ou deu muita visibilidade, a um formato de operação criminosa até então pouco conhecido ou pouco difundido no Rio Grande do Sul. E, em alguns casos, também com embates cinematográficos com os próprios organismos policiais.

Havia situações em que os criminosos simplesmente imitavam a ficção, mostrando que determinadas ações eram fruto de estratégia, preparo e, provavelmente, nenhum receio de possíveis enfrentamentos com a polícia ou empresas privadas de segurança. A novidade, se olharmos pela manutenção do modus operandi, era o uso de explosivos, caminhões ou caçambas para abordagens a carros-fortes. Criou-se uma metodologia de ação, mostrando organização e planejamento.

A respeito de um livro sobre os bastidores da prisão deste criminoso, considero que relatos sobre segurança pública, se com foco na segurança pública e sua qualificação no combate ao crime, são elemento elucidativo e diferenciado para um recorte temporal das próprias organizações policiais e seus métodos de ação no combate ao crime.

Penso que é importante sempre frisar que não compactuo com vitrine para o crime, ou seja, até mesmo dar nome a quadrilhas, bandos ou qualquer tipo de organização. Dá moral para quem não precisa e não deve tê-la. Estar ao largo da lei é estar na marginalidade e, independente das abordagens antropológicas ou sociais que expliquem ou tentem jogar luzes mais humanas na criminalidade, o caminho do bem é sempre o caminho.

Cid Martins, jornalista e repórter da Rádio Gaúcha

 DEPOIMENTOS

Para mim, o criminoso que inspirou os fatos do livro foi o Carioca dos anos 80, o Melara e Papagaio dos anos 90, apesar do Papagaio ainda gerar notícias sobre fugas. Mas ele era o bandido número 1 de fato, que todos sabiam quem era e que temiam pelo modo de agir.

Foi o criminoso que inovou táticas e que nunca tinha sido preso, sendo a prisão dele uma questão de honra da polícia. Tanto é que o hoje Chefe de Polícia do Rio Grande do Sul era, na época, o diretor do Departamento de Investigações Criminosas (DEIC).

Ele é tão importante para a crônica policial que qualquer um que fosse preso e tivesse ligação com a sua quadrilha, mesmo agora, geraria manchete. Um de seus julgamentos, neste ano, rendeu notícia o dia inteiro, com acompanhamento on-line por sites e rádios. Enfim, era o inimigo público número 1 do Rio Grande do Sul e, portanto, da polícia, gerando insegurança, mas muita mobilização para vê-lo atrás das grades e muita informação sobre suas ações.

O que mais impressionava nas ações da quadrilha era a audácia e a violência. Agindo tanto no Rio Grande do Sul quanto em Santa Catarina, era calculista, meticuloso e desconfiado. Depois dos assaltos, ele literalmente acampava em matagais e ficava dias escondido, até a desmobilização policial. Depois, planejava novos ataques.

Em depoimento à polícia, por exemplo, disse que só duas pessoas sabiam onde estava o dinheiro roubado após um ataque e, se mais alguém soubesse, ele matava esta segundo pessoa, o que chegou a ocorrer. Agia friamente e não temia a polícia, mas respeitava, por isso era cuidadoso. Também exigia a presença de integrantes inteligentes na quadrilha.

A novidade na ação da quadrilha era, em primeiro lugar, o uso de caminhões para bater em blindados nas estradas. Era sua marca registrada. Depois, aprimorou e usou caminhão para bater diretamente na sede da empresa de segurança que transportava valores. Logo depois, foi preso. Esses foram seus dois modos de agir mais marcantes. Também teria usado explosivos para danificar ponte e atacar blindado, mas não deu muito resultado.

Foi o inimigo público número 1 do Rio Grande do Sul por meia década, praticamente. Sua prisão foi ponto de honra da polícia e gerou gastos aos cofres públicos. Mas também houve mortes de criminosos e de inocentes e causou muita insegurança no estado. Os agentes foram condecorados e, até hoje, se procura o dinheiro que ele roubou e que poderia estar enterrado em um sítio. A companheira dele foi ameaçada várias vezes e chegou até a ser raptada, após a prisão, para que indicasse onde estaria o dinheiro roubado dos blindados.